Voltei! Nossa, já estava com saudades de escrever post para meu blog <3 Estive ausente não por falta de conteúdo, mas por falta de organização: não estava encontrando tempo para escrever nas últimas semanas. Por sorte hoje além de algo bem legal para compartilhar, encontrei também tempo. Bom mas vamos ao que interessa; o assunto deste post.
Lembra que em um dos posts passados eu contei que estou ensinando um pouco melhor Sócrates? Pois bem. Ao refletir sobre minha prática vi que estava errando ao ler sempre, em cada aula, o texto filosófico com os alunos e que devia deixá-los ter uma experiência com o texto e ver como está o nível de interpretação deles. Pensando nisso, pedi que eles lessem em grupos o trecho de texto filosófico da aula “Conhece a ti mesmo” (disponível na tag “materiais”) e o resumisse.

Na foto alunos do 1ºG lendo o texto.
O texto se divide em dois momentos de argumentação e em si, a meu ver, não é difícil em sua primeira parte. Nela Sócrates esclarece que o conselho escrito na entrada do Oráculo de Delfos “Conhece a ti mesmo” é direcionado aos homens e que estes são, na verdade, suas almas. Logo, ao recomendar ao homem que ele se conheça, queremos que ele conheça sua alma.
Já na segunda parte, Sócrates nos diz como podemos conhecer nossa alma e é aqui que as coisas ficam um pouco mais difíceis. Nos diz ele, através da metáfora do olho, que para conhecer nossa alma devemos usar a alma de outra pessoa como uma espécie de espelho. Para conhecer nossa alma devemos compará-la com a alma dessa outra pessoa em relação aquilo que as duas almas possuem de mais divino: o conhecimento e a sabedoria. E objetivo de tal conhecimento é melhorar a nós mesmos, como ele deixa claro no início do diálogo com Alcebíades.
Ao ler os resumos, percebi que a maioria dos alunos não conseguiram entender esta segunda parte. Depois de corrigir os resumos, ainda expliquei todo o texto para deixar claro a parte que eles não tinham conseguido entender. Como boa parte das turmas de 1º ano estão com conteúdo adiantado (mais precisamente 5 delas), ao corrigir a prova percebi que ainda assim, os alunos não tinham entendido como, para Sócrates, podemos conhecer nossa alma.
Entre uma tarefa e outra da minha rotina, fiquei pensando: o que posso fazer para facilitar o entendimento dessa parte do texto para os alunos? E ontem, ao voltar da prova de redação do ENEM enquanto cantarolava a música do trailer de As Vantagens de Ser Invisível, me veio a solução. Uma ideia uma óbvia e ao mesmo tempo tão legal que me surpreendi por não ter pensado nela antes e desde aquele momento fiquei ansiosa para colocá-la em prática.
Olha só que simples: se para Sócrates devemos conhecer nossa alma usando a alma de outra pessoa como uma espécie de espelho, então vamos conhecer nossas almas na sala de aula! Da seguinte forma: dividir a turma em duplas, deixando que os alunos escolham sua dupla. Depois disso cada um tem que “olhar” para alma do outro e indicar uma qualidade dela que ele gostaria de possuir. Mas não para por aí: já que o objetivo desse autoconhecimento é se melhorar, aquele que possui esta qualidade daria dicas para o que não a possui de como ele pode adquiri-la. Para ficar ainda mais simples ao invés de pedir algo escrito, as respostas seriam faladas.
Assim que organizei o pensamento fiquei ansiosa para colocar em prática e por sorte hoje é segunda-feira \o/ E eu tenho aula em 2 turmas de 1º ano (H e F) que estão com o conteúdo atrasado: fiz esta experiência nelas e... Fui um sucesso! Acredito que agora sim ficou claro como você pode usar a alma do outro para conhecer e melhorar a sua, além disso foi ótimo conhecer melhor cada aluno através das qualidades que seus colegas listavam sobre ele. Sem falar no bônus de várias dicas legais sobre como tornar-se mais sincero sem magoar os outros, ter mais atitude, ser menos tímido, mais inteligente, mais sábio, mais bem-humorado...
Ah e eu não poderia deixar de registrar aqui uma dupla do 1º H cujas integrantes são amigas há 5 anos e ao falar uma da outra se emocionaram (tá bom, me emocionaram também... Malditos ninjas cortadores de cebolas!), lindo demais *-* Nem preciso dizer que esta experiência/dinâmica vai entrar para meu planejamento do ano que vem né?
Um abraço, hoje eu realmente estou de bom-humor, e até a próxima aula, ops... Postagem.

A aula abaixo foi planejada por mim de acordo com a metodologia MELO 2013, desenvolvida pela querida Elizabete Amorim. Ela é direcionada ao 1º ano do nível médio. Se você é professor e quer usá-la fique a vontade, a proposta é minha mas a partir do momento em que você a usa "imprime" nela seu estilo de dar aula. Peço apenas para que cite a fonte e que me conte depois como foi: se os alunos gostaram, se teve que alterar algo, etc assim poderei ir melhorando-a ;)

Música
O Que  Sobrou Do Céu-  O Rappa
O, la lá, o la lá, ê ah
O, la lá, o la lá, ê ê 2x
Faltou luz mas era dia, o sol invadiu a sala
Fez da TV um espelho refletindo o que a gente esquecia
Faltou luz mas era dia... di-ia
Faltou luz mas era dia, dia, dia
O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal
O chá pra curar esta azia
Um bom chá pra curar esta azia
Todas as ciências de baixa tecnologia
Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina
Pra gente ver... por entre prédios e nós...
Pra gente ver... o que sobrou do céu... o la lá
Disponível em: < http://letras.mus.br/o-rappa/28942/> Acesso em 09 de Fevereiro de 2015.

Texto didático 1
“Experiência filosófica [...]
Estranhamento ou deslocamento
Trata-se do primeiro passo da experiência filosófica. Quando uma pessoa vive uma circunstância de deslocamento ou estranhamento, experimenta uma quebra uma interrupção no fluir normal de sua vida. Detém-se então, para pensar e observar algo que antes não via, ou que vivia de forma automática, sem se dar conta, sem atenção, sem se questionar. [...]
Questionamento ou indagação
Trata-se do segundo passo da experiência filosófica. Após viver o estranhamento, a pessoa inicia um processo de questionamento (interno e externo) sobre o tema que lhe chamou a atenção. [...]
Certamente você já passou, em algum momento, por uma experiência parecida, após algum momento marcante de sua vida. Pode ter sido durante uma viagem ao estrangeiro, na morte de um ser querido, em uma grande decepção amorosa, ou em muitas outras circunstâncias distintas. E aí começou a s questionar, mesmo que superficial brevemente, sobre sua vida e a existência em geral. Pois, então, você estava tendo uma experiência filosófica, ainda que rudimentar. Estava dando os primeiros passos no filosofar.

Referência: COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. p. 12.

Trecho de texto filosófico
“Metafísica- Livro A
Todos os homens, por natureza, tendem ao saber. Sinal disso é o amor pelas sensações. De fato, eles amam as sensações por si mesmas, independentemente da sua utilidade e amam, acima de todas, a sensação da visão. Com efeito, não só em vista da ação, mas mesmo sem ter nenhuma intenção de agir, nós preferimos o ver, em certo sentido, a todas as outras sensações. E o motivo está no fato de que a visão nos proporciona mais conhecimentos do que todas as outras sensações e nos torna manifestas numerosas diferenças entre as coisas. [...]
De fato, os homens começaram a filosofar, agora como na origem, por causa da admiração, na medida em que, inicialmente, ficavam perplexos diante das dificuldades mais simples; em seguida, progredindo pouco a pouco, chegaram a enfrentar problemas sempre maiores, por exemplo, os problemas relativos aos fenômenos da lua e do sol e dos astros, ou s problemas relativos à geração de todo o universo. Ora, quem experimenta uma sensação de dúvida e de admiração reconhece que nãos abe; e é por isso que também aquele que ama o mito é, de certo modo, filósofo: o mito, com efeito, é constituído por um conjunto de coisas admiráveis. De modo que, se os homens filosofaram para libertar-se da ignorância, é verdade que buscavam o conhecimento unicamente em vista do saber e não por alguma utilidade prática. E o modo como as coisas se desenvolveram o demonstra: quando já se possuía praticamente tudo o de que se necessitava para a vida e também para o conforto e para o bem-estar, então se começou a buscar essa forma de conhecimento. É evidente, portanto, que não a buscamos por nenhuma vantagem que lhe seja estranha; e, mais ainda, é evidente que, como chamamos livre o homem que é fim para si mesmo e não está submetido a outros, assim só esta ciência, dentre todas as outras, é chamada livre, pois só ela é fim para si mesma.”
Referência: ARISTÓTELES, Metafísica. Livro A, 980a-982b. IN: REALE, Giovanni. Metafísica. Vol 2. São Paulo: Edições Loyola, 2001. p. 3-13.

Texto didático 2
“A filosofia nasce do assombro
O problema: Por que os homens desejam conhecer? De onde vem a Filosofia?
A tese: O desejo de conhecer é inerente a natureza humana e nasce do assombro que sentimos diante da beleza do mundo.  Todo conhecimento produz uma sensação de prazer, seja quando se trata de uma simples percepção, seja, com maior razão, quando se alcança a iluminação do espírito a partir da pura intuição intelectual. Filosofam também, as pessoas nascidas antes do advento da filosofia, porque o ser humano não vive sem questionar o mundo que o cerca. Não se pode viver sem filosofar, ao menos nas sociedades economicamente desenvolvidas. Segundo Aristóteles, como a reflexão filosófica é uma atividade desinteressada, não imediatamente útil aos problemas da vida cotidiana, é necessário que o homem resolva os problemas de sobrevivência antes de se dedicar a essa prática.

Referência: NICOLA, Ubaldo. Antologia ilustrada de Filosofia- das origens à idade moderna. São Paulo: Editora Globo, 2002. p. 85.

Atividade avaliativa
Segundo Aristóteles, como nasce a Filosofia e que relação podemos estabelecer entre sua visão e a música “O que sobrou do céu”- O Rappa? E você: já passou por este tipo de experiência descrita pelo filósofo?

A aula abaixo foi planejada por mim de acordo com a metodologia MELO 2013, desenvolvida pela querida Elizabete Amorim. Ela é direcionada ao 1º ano do nível médio. Se você é professor e quer usá-la fique a vontade, a proposta é minha mas a partir do momento em que você a usa "imprime" nela seu estilo de dar aula. Peço apenas para que cite a fonte e que me conte depois como foi: se os alunos gostaram, se teve que alterar algo, etc assim poderei ir melhorando-a ;)
Recurso

Tirinhas do site “Um sábado qualquer”

Referência: << http://www.umsabadoqualquer.com/category/socrates/>> Acesso em 08 de Outubro de 2014

Texto didático
“Quem é?

Sócrates (c. 470-399 a.C.). Nasceu e viveu em Atenas, Grécia. Filho de um escultor e de uma parteira, Sócrates conhecia a doutrina dos filósofos que o antecederam e de seus contemporâneos. Discutia em praça pública sem nada cobrar. Não deixou livros, por isso conhecemos suas ideias por meio de seus discípulos, sobretudo Platão e Xenofonte. Acusado de corromper a mocidade e negar os deuses oficiais da cidade, foi condenado à morte. Esses acontecimentos finais são relatados no diálogo de Platão, Defesa de Sócrates. Em outra obra, Fédon, Sócrates discute com os discípulos sobre a imortalidade da alma, enquanto aguarda o momento de beber a cicuta. Na maioria dos diálogos platônicos, Sócrates é o protagonista.

Referência: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2009. p.19

Trecho de texto filosófico
“Depois me dediquei com todas as minhas energias a procurar resolver o enigma. Fui ter com um daqueles que têm fama de sábio com o intuito de encontrar elementos ara refutar o oráculo, se isso fosse possível de alguma maneira, contrapondo o fato de que ele mesmo era com certeza mais sábio do que eu, quando o que se dizia era que o mais sábio de todos era eu.
Interrogando, então, tal pessoa (não importa o seu nome: basta dizer que quem me transmitiu a ideia que estou a vos referir era um político) e falando-lhe, tive a impressão de que de fato parecia a ele (e a muitos outros também, mas principalmente a ele) ser sábio, mas na verdade não o era. Então tentei demonstrar-lhe que ele se acreditava sábio, mas que na verdade não era assim.
Por isso, atraí sobre mim o seu ódio e também o de muitos dos que estavam presentes. No entanto, ao ir embora refleti comigo mesmo que na verdade eu era mais sábio do que aquele homem: de fato, cada um de nós dois corre o risco de não saber absolutamente nada de belo e de bom, mas ele acredita saber alguma coisa, quando na verdade não sabe; eu, no entanto, não só não sei como não acredito saber. Portanto, parece-me que eu seja mais sábio do que ele justamente por esta pequena diferença, de que não acredito saber aquilo que não sei.”
Referência: PLATÃO. Apologia de Sócrates. São Paulo: Edipro, 2011.

Atividade avaliativa
1. Interprete a tirinha acima de acordo com o que foi estudado em sala de aula acerca da sabedoria socrática.
2. Em sua opinião: é atitude sábia admitir aquilo que não se sabe?

Ao fazer meu planejamento anual, principalmente para o 1º ano do ensino médio, ao listar o nome de grandes filósofos que são um tanto quanto “pop” sinto arrepios. É o medo de não conseguir ensiná-los com o rigor que eles merecem. Minha preocupação com isso ficou ainda maior ao encontrar alunos no 3º ano que não compreendem sequer o sentido epistemológico do Mito da Caverna.
Atualmente estou trabalhando com as turmas do 1º ano Sócrates e comparando minhas aulas do ano passado com as atuais pude perceber uma melhora na clareza e no modo geral de como o ensino. Ano passado, assim como este ano, dediquei uma unidade temática (conjunto de aulas sobre o mesmo tema/filósofo) só para este autor e neste ano caí no erro de usar o mesmo material, erro que explicarei melhor em uma outra postagem. Fiz apenas algumas alterações quanto ao tamanho dos textos selecionados e as atividades para cada aula.
No decorrer das aulas anteriores, porém parei para refletir sobre minhas aulas do ano passado e percebi que muito do que é essencial para compreender Sócrates ficou de fora. Só para citar como exemplo: a forma como sua vida está totalmente ligada a sua forma de filosofar, como a maiêutica influenciaria Platão a escrever na forma de diálogos, entre outros. Outro problema, este bem maior pois é algo que diz respeito ao meu modo de ensinar, é que considero que ainda ensino de uma forma que não abre muito espaço para problematização, estranho né? Dar aulas de filosofia e abrir pouco espaço para uma das coisas mais importantes para ela.
Já que eu não tinha como alterar os textos que usaríamos na sala de aula este ano (caí na besteira de passar uma apostila que serviria para todo o primeiro semestre), o jeito foi ir incluindo nas aulas já planejadas um espaço para explicar aquilo que o material tinha deixado de fora. Na primeira aula da unidade temática (deixarei aqui com o marcador “materiais”) que aborda uma das frases de Sócrates mais interpretadas erroneamente Só sei que nada sei, passei a abordar também a maiêutica.
A forma para inserir isto foi bem simples: fiz uma experiência em sala de aula na qual tentei agir como Sócrates, isso óbvio sem me fantasiar dele rs, perguntando aos alunos o que eles acreditavam ser a justiça e daí progredindo para as outras etapas do método socrático. O incrível é que Emerson, meu platônico favorito, tinha me sugerido isto desde o ano passado, mas como não sou boa em improviso e muito disso seria imprevisível, não testei isso no ano passado. Uma pena, pois os resultados foram muito positivos; senti que os alunos compreenderam de forma mais fácil por esta experiência simples o que era o tal parto de ideias e como Sócrates o fazia. Se você estiver lendo isto: MUITO OBRIGADA Emerson.
Perceber que estou melhorando na sala de aula e também no modo como eu enxergo minha prática e ajo sobre ela me deixa muito feliz, sinto que estou evoluindo e me tornando uma professora, de forma geral, melhor. Só não fico mais feliz por que ainda posso estar errada: atribuindo aos alunos um entendimento do conteúdo que talvez não esteja lá. É comum perguntar: entenderam? Ficou claro? E eles responderem que sim e na hora da avaliação perceber que estavam mentindo... Se você é meu aluno e  está lendo isto perceba o quanto é importante para mim que você não minta quando responde a estas perguntas ;)
Ainda assim, vou curtir essa sensação até a hora da avaliação e, caso ela seja enganosa, aí eu reflito novamente e encontro soluções. Nos vemos na próxima aula. Ops, postagem!